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15 de jan de 2010

O último contato consciente do meu pai

No meio da madrugada ele ligou. Nunca gostou de incomodar. Nunca quis demonstrar fragilidade. No meio da madrugada ele ligou. Não era ele, era minha mãe, seguindo um pedido dele. Eu atendi, mas não era exatamente comigo. Ele pedia a presença do meu namorado, Paulo, médico, pessoa que ele confiava e por quem manifestou afinidade espontânea desde o primeiro contato. Apesar de nao ser o medico do meu pai, por uma coincidencia, poderia ser ele, pela sua especialidade.

Chegamos no hospital minutos depois. Ele estava com uma máscara de oxigênio. Há dias o víamos assim. Queixou-se:
- Não estou conseguindo respirar. Se continuar assim eu vou...

Paulo se viu na condição que outras vezes já tinha vivido como profissional, mas não desta maneira tão próxima, pelo vínculo que me unia a ele e que, consequentemente, o unia a meu pai. Abaixou a cabeça para que pudesse olhar nos olhos enquanto dissesse:
- Olha Nahim, o que podemos fazer agora é entuba-lo, assim uma máquina irá respirar por você.
O rosto do meu pai emitiu um resquício de luz, uma modesta alegria e uma gota de alívio como se encontrasse a última saída. Foi como se abrissem para ele uma janela que lhe permitisse sentir o frescor do ar. Paulo já tinha me alertado no caminho que caso meu pai fosse entubado...
- O problema, Nahim, é que se você for entubado teremos mais dificuldade de faze-lo voltar.
Mais uma vez ele foi surpreendente. Respondeu sem se abater:
- Vamos pelo positivo!
Foi a última frase que ouvi dele. Abracei-o. Disse que o amava.

Tenho poucas cenas tristes para lembrar do meu pai, nosso contato foi sempre de muito amor, tanto que tem preenchido a minha vida mesmo agora, na falta dele. Entretanto algumas cenas do hospital me fazem doer um pouco. Vê-lo com um semblante cansado e sofrido como quando se lamentou:
- E eu estava tão bem...
Uma semana antes de piorar ele estava quase tendo alta. Ia voltar para casa.

Na madrugada em que fez sua última escolha consciente somente meu namorado pode acompanha-lo a UTI, por ser médico. Foi o último rosto conhecido que meu pai viu de olhos abertos. Paulo lhe disse:
- Pode deixar que eu cuido da Aline, da Andreza, da Adelita e da Avanil.

Meu pai assentiu com a cabeça e disse obrigado. Penso que seu rosto não deve ter manifestado emoção alguma, ele não tinha mais forças para isso. Mas seu olhar… Talvez pelo olhar fosse possível identificar a paz e felicidade de ouvir aquelas palavras, naquela hora, daquela pessoa.

3 comentários:

Cacarina disse...

Aline,
vez ou outra choro quando leio suas palavras. Nunca de tristeza, sempre de beleza. Nunca pelo que aqui conheço da sua vida, muito pelo que você sente enquanto vive.
Isso eu desejo, que o ser humano descubra esse universo infinito que existe dentro dele. Isso eu contemplo em seus textos. Nas ações valiosas do seu pai, nas impressões que você tem, dele e da vida.
E então, sua dor compartilho, e esse olhar amoroso, multiplico.
Obrigada sempre pela partilha.
Um doce beijo em seu coração e em sua família.
Claudia

Anônimo disse...

Aline , primeiro quero dizer que desejo o melhor para todas vocês , mulheres guerreiras que são.
E , depois dizer que nao há como não emocionar-se lendo o que escreve e sentindo o que pensa.
Agradeço a Deus por ter partilhado um pouquinho minha vida com vocês e ser testemunha desse amor verdadeiro.
Beijinhos e assim que estiver em São Paulo , ligo para sua mãe , quero vê-la.
lúcia elena

vivi ferreira disse...

ALINE...
VC SEMPRE ME EMOCIONA...ADORO LER O QUE ESCREVE.
UMA VEZ TENTEI CRIAR UM BLOG MAS DESISTI, POIS PERCEBI QUE ELE TERIA QUE TER UMA FINALIDADE ALGO QUE TOCASSE AS PESSOAS E PERCEBI QUE O MEU SERIA APENAS UM A MAIS...SEM TANTA EMOÇÃO...ENTÃO DEIXO NAS MÃOS DE ALGUMAS PESSOAS QUE SABEM NOS TOCAR O CORAÇÃO E VC É UMA DELAS...QUE TODA FAMÍLIA SINTA-SE ABRAÇADA
BJOCAS
VIVI

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