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14 de mai de 2009

Sobre a eternidade da mulher

Tenho escrito em todas as edições de uma revista. Para mim é sempre difícil finalizar o texto, olhar para ele e pensar "está pronto!". É como se sempre merecesse retoque, mudança, cortes. Na próxima edição sairá um texto meu especial para o Dia das Mães. Quero compartilhar aqui em primeira mão, como sempre tenho feito.

Sobre a eternidade da mulher
Quando acordou percebeu algo diferente. Não era como acordar desde sempre. Havia uma dor e uma felicidade completas, uma de mãos dadas a outra. E porque medo e alegria se misturavam dentro de si pode ser que aquela vida, uma outra vida, fosse lhe trazer mesmo sentimentos nunca antes sentidos. É o que todos dizem.

Um coração pulsava dentro dela, e não era o seu próprio. Ela era um corpo com outro corpo dentro. Uma pele abrigando outro corpo, dois corações. A natureza já tinha repetido esse fenômeno milhões e milhões de vezes, entretanto era novo para ela. Até porque as repetições não importam quando cada renovação é única, cada ser é uno.
A maternidade foi adquirindo um novo sentido. Não era mais um pensamento ou uma vontade. Era a espera da luz. Quando a luz chegasse ela não a daria ao filho. Daria o filho à luz. Aquele dentro dela não era ela, não era dela, era da luz, e doía um pouco pensar que ele pertenceria a alguém fora dela até mesmo antes de pertencer a si mesmo. Os filhos são da vida. Não vieram da vida, vieram das mães, mas é para a vida que irão. Pelo menos assim deveria ser, para o bem dele.

Semanas e semanas passaram. Cada uma contada. E os anseios aumentavam. Contrações, choro, dor. Era o momento da vida. Era o momento da luz. E então aconteceu. Ele veio à luz. Ela o deu à luz. E pode abraçá-lo por fora. Pode tocá-lo com a superfície de sua pele, sentir a pele dele com a ponta dos dedos, com o afago de seu corpo.
Depois o leite.

Depois o choro. E choro, choro, choro... Tantas lágrimas de significado oculto. O desespero de não saber interpretá-las. Às vezes chegava a derramar também as suas.

Depois a linguagem. O choro de fome era diferente do choro de sono. O choro de dor era diferente do choro de frio. E cada choro tinha um som especial. Assim, como mãe, ela aprendia a decifrar a linguagem do filho, antes mesmo que ele pudesse expressar palavras. E mesmo que ele ainda não identificasse suas palavras é como se compreendesse o sentido cada vez que conversava com ele:
"Filho, agora vou dar banho!"

E a palavra "banho"se desdobrava em minúcias:
"Vou tirar sua roupa, talvez você sinta um pouco de frio, mas logo vai sentir a água, quentinha e gostosa, tocar sua pele. O banho é gostoso, filho, e eu estou aqui com você. "
Era natural que as conversas se encerrassem ou se intercalassem com os dizeres:
"Te amo, filho!"
Se pudesse ele responderia que também a amava. Mas a linguagem era outra. Dizia com o olhar, com o silêncio, e até com seu choro, nem sempre ela entendia...

Depois vieram as despedidas. Ser mãe é conviver com a culpa. Ele sofre, ela sofria junto. Como deixar aquela formosura em casa distante de sua presença para buscar o sustento da casa? Nunca tinha tido a sensação de sair de casa e esquecer um braço ou uma perna. Era ainda pior... Um pedaço de si, até porque ele tinha sido mesmo um pedacinho que pulsava dentro dela por 9 meses.
Depois a escola. "E se ele não chorar?", pensava. Porque por dentro ela choraria, de orgulho, de emoção, mas também por aquela separação, pela autonomia dele. Ele estava começando a enfrentar o mundo, os relacionamentos, os aprendizados e ela não estaria ao lado para ver.
Depois a adolescência. Ele nem se orgulhava mais. Agora era a vez dos amigos, das festas, das primeiras aproximações femininas...

Depois a faculdade, a formatura, o casamento...
Um dia o filho estaria sentindo como ela. Só que do lado de fora. Ele seria pai. A experiência se renovaria. Ter um neto é ser mãe duas vezes, o ciclo da vida teria completado outra volta.

Olhou no espelho, o tempo tinha passado rápido, quase sem momentos para que enxergasse mais de perto as rugas, a pele perdendo elasticidade... Sentia-se segura, ainda bonita. As mães adquirem uma beleza que as mortais não podem alcançar. O amor incondicional que mora nelas as faz mais belas.

Enquanto houver vida novas vidas hão de existir também para contemplar o desejo humano de imortalidade. Mães sobrevivem eternamente nos traços dos filhos, nos trejeitos dos netos, e assim, até mesmo para as mães que já morreram, a vida continua sempre, de uma outra maneira. Na vivacidade dos filhos, na vida dos que ficam. Por isso ser mãe é degustar a eternidade.
Por Aline Ahmad

Um comentário:

Cacarina disse...

Que doce dor causa esse seu lindo texto! Parabéns, querida!
Claudia

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