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25 de set de 2008

Noite de Encontros (24/9/2008)

Saí cedo de Guarulhos porque gosto de ver as pessoas de perto. Quero quase sentir os cheiro das palavras, o calor das letras. O encontro de Rubem Alves e Elisa Lucinda estava marcado, no teatro de uma escola estadual na Vila Madalena.

O fato de Gilberto Dimenstein ter pensado em apresentar Rubem Alves a Elisa Lucinda assim que a conheceu me fez criar uma forte identificação com ele. Estar ali, naquela escola, fruto de um projeto do cara me causou múltiplas sensações. Fiquei com inveja! Ele é simplesmente tudo que eu queria ser: uma pessoa que usa a própria alma para acender uma chama na alma dos outros. Uma vez ouvi ele dizer que quando acendemos uma vela nós também iluminamos o outro e que quando alguém acende uma vela nós também somos iluminados. Mágico!

[Também já o ouvi dizer que a função da escola é "gerenciar sonhos".]

Chegada no local
Assim que cheguei, ainda cabreira olhando para os lados e me ambientando, uma voz com um sorriso acenou-me. Era a Jô, que fez comigo o curso de poesia falada, da Elisa Lucinda.

Mostrei meu livro "A Poesia do Encontro", presente da Renata. Contei que qualquer pessoa de sensibilidade que me conhece sabe da minha ternura por Rubem, da minha admiração por Elisa... A Renata, sensível que é, me presenteou logo que viu os autores da obra.

Eu queria a primeira fila, por isso fiquei mais de meia hora em pé, em frente uma cortina que se abriria para a entrada no teatro. Passou por mim o Nando Reis. Dimenstein apresentou a ele a escola. Eu tive vontade de ir junto conhecer as salas mas não quis comprometer minha cadeira na primeira fila...

Preliminar do Encontro
Nos minutos finais da meia hora que passei ali muitas pessoas chegaram e se acumularam ao meu redor. A Jô tinha comentado sobre a mascote da nova turam de poesia falada, simplesmente uma senhorinha serelepe de 80 anos. Sorri. Minutos mais tarde ela estava ao meu lado recitando poemas. Talvez tenha sido a presença mais extraordinária da noite. Imagine uma senhorinha dizendo poemas que começou a escrever há apenas um ano. Detalhe: poemas eróticos. Um deles, "Receita de Bolo", em minhas palavras seria assim:
Meu vizinho queria fazer um bolo,
Eu não tinha receita,
Mas eu tinha 20 anos!
Ele queria a massa,
Ofereci meu corpo,
Ele amassou.
Ele queria açúcar,
Dei meu lábios,
Ele beijou.
O leite dele ferveu dentro de mim.
Saímos da cozinha
Fomos para cama.

Peço desculpas pelo crime de tentar relembrar o poema. Obviamente o dela era muito melhor, com rimas, e trechos que não posso me recordar. A "jovem" vai lançar um livro e será personagem de uma coluna de Dimenstein.
Ela trouxe um papel, disse que agora que se descobriu poetisa começou a sentir vontade de escrever poemas para terceiros. Entregou um para a moça ao meu lado que o leu. Depois fui saber que era a esposa de Gilberto. Sentou ao meu lado e tive que me conter durante o evento. Eu lá com minha imensa inveja do marido dela. Queria saber se quando o conheceu ela podia imaginar quem ele se tornaria. Queria perguntar como ele era antes da fama e da notoriedade. Queria mais motivos para me identificar e achar que, quem sabe, poderia ser possível um dia eu me tornar como ele.



Rubem: Um Capítulo À Parte
E Rubem? Ah, Rubem de jaqueta de couro e boina preta aquecendo a cabeça sem cabelos... Rubem envelhecido por fora, menininho por dentro. Ah, Rubem! Quando o vejo fico "abestalhada". Provavelmente ele é a pessoa viva que mais admiro. (Com exceção da família e dos amigos). Admiração de fã. Puxa, fico lembrando, quanto já escrevi por ele, quanto já li dele, quanto sentimento ele já me despertou... Fiz amor com Rubem muitas vezes, um amor sem carne, sem pele, tudo sublimado. Ele nem sabe mas aconteceu. Culminou em poesias e êxtase. Meu coração acelera quando leio o que escreve.

Começou sua fala assim:
"Estava triste. A passagem do tempo tem me deixado triste... Completei 75 anos. São anos que não tenho mais. Os que tenho eu não sei. Esses eu tive, passaram."

Contou que recebera um bilhete com elogios. Pronto, foi suficiente paa ficar feliz. Imediatamente eu também quis escrever a ele um bilhete. Assim:
"Querido Rubem, saber que você está triste me fez lembrar Einstein: 'O tempo e o espaço são modos pelos quais pensamos e não condições nas quais vivemos'. (Einstein)
Rubem, com certeza, você está fora do tempo."


Ele também tinha citado T.S. Elliot: "Numa terra de fugitivos quem corre na direção contrária parece estar fugindo".

Por isso em meu bilhete também citei uma frase de Nietzsche, filósofo que Rubem admira: "E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música" (Nietzsche). E completei:

"Obrigada por me permitir ouvir a música, desde que leio suas palavras".

Assim que entreguei o bilhete ele o leu. Com atenção, cuidado, de repente em seu rosto foi surgindo um sorriso. Naquele instante ídolo e fã se misturaram. Um texto meu o fez sorrir. Depois me procurou na platéia, mas o show estava acontecendo e fui embora sem receber o abraço que ele me daria, imagino...

Um comentário:

Mauricio disse...

Meu Deus o que podemos dizer deste Mestre Rubens Alves não é?
Ele e fantastico, magnifico mesmo!
Amo suas obras.
Beijao

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