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15 de abr de 2009

65 anos de amor...

Naquele dia eles celebrariam 65 anos de união. Estavam de mãos dadas, no carro, esperando o momento de entrarem na igreja para a renovação dos votos matrimoniais.

Fiquei com os olhos hipnotizados enquanto ele me confidenciou:

"Eu me apaixonei por ela no primeiro instante em que a vi". Ela sorriu timidamente ao ouvi-lo dizer aquilo e com as pontas dos dedos já enrugados pelo tempo tocou a mão dele. Foi uma afago que se manteve durante o tempo em que os observei.

Ele disse mais:

"Quando ela viaja eu peço a Deus para que não a deixe ficar doente e que se for enviar alguma doença que envie a mim, jamais a ela."

Foram frases tão reais... Eu já tinha escrito para eles este texto (encomendado pelos filhos e netos para uma homenagem):

As histórias de amor acontecem o tempo todo e em todos os tempos, mas esta história de amor é tão rara quanto um cometa que cruza o céu uma única vez em cada século.

Poucos se lembram como começou e o mais mágico é que não tem fim e tem um durante tão intenso e tão vívido que deslumbra todos os descendentes oriundos deste amor. Um amor que atravessa dias, meses, anos e décadas, que sorri para cada um de nós como nos sorri a lembrança de nossa infância. Um amor que foi o berço em que fomos acalentados e que continua sendo o destino mais sublime e encantado com que todos nós sonhamos. Um amor capaz de fazer florescer 12 botões, dos quais de todos ainda se sente o perfume, até mesmo do qual as pétalas parecem secas*. Um amor que existe não para que falemos dele mas para que seja contemplado em sua plenitude com as palavras que a caneta da vida escreve e somente os olhos do sentimento podem ler.

Manoel e Elza, pessoas cujo as imagens nos contam sobre um amor que nem mesmo os poetas conheceram. A existência de vocês é como um sopro de esperança e luz para nossos corações. Celebrar a união de vocês é como uma manhã clara que vem amanhecer a nossa escuridão. São em seus semblantes que nosso pensamento debruça nas horas de maior desespero e tristeza. É por vocês que se porventura uma lágrima nos umedecer a face a nossa caminhada ainda vale a pena. Vocês são para nós como uma estrela a emanar o mais puro e irradiante brilho. Um raio que a cada passo nos ilumina e que em nossos lamentos nos salva.

Vocês renascem hoje em nós como nós nascemos um dia em vocês, porque são para nós os nossos pais, os nossos avós, os nossos bisavós... Mas também a criança que desejaríamos carregar nos braços para retribuir toda ternura, todo afeto, todos os abraços, todo amor que recebemos. O mesmo amor que nos fez e que, hoje, embora repartido entre nós concebe o milagre de se tornar ainda maior.

Elza e Manoel, não sabemos o que vocês pensam sobre o que fizeram da vida ou sobre o que a vida fez com vocês, mas se olharem à sua volta verão que neste recinto não há uma só alma que vocês não tenham marcado.

Olhem à sua volta! Se existe ainda algum olhar que não esteja marejado é porque choramos por dentro a emoção de descender de vocês. Não há uma só voz que não fique embargada... É como uma canção que nos foge da garganta, porque sentimentos não se exprimem nesses breves instantes de uma homenagem que nem mesmo uma vida toda poderia equivaler. Então oferecemos a vocês as nossas vidas para que nelas, a nosso modo, presenteemos vocês com o nosso sucesso, com nossas vitórias, com nossos frutos, com nossos filhos, essas outras vidas que vieram, vem e virão semeando a mesma semente de luta e de glória que jorra dessa mesma raiz.

Ah, se Elza não se apaixonasse por Manoel... Ah, se Manoel não se enamorasse por Elza... Nada disso seria possível. Passaram 65 anos e nada disso seria real. E mesmo que seja real é, para nós, como um sonho. Um sonho que vocês realizam na magnitude desse olhar que esconde as suas verdadeiras histórias, com certeza ainda mais belas e mágicas que essas que tentamos contar. Nos permitam sonhar sempre esse sonho com vocês!

Com o mais etéreo afeto,

De seus filhos, netos, bisnetos, enfim todos os orgulhosos descendentes de vocês!


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* Eles tiveram 12 filhos, um faleceu, representado nesta metáfora pela flor de pétalas secas.

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