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6 de jul de 2009

Gay Talese


Algumas coisas me encantam. Ainda estou persuadida pelo perfume da Flip. Acompanhar de longe, ler comentarios, ler o que escreveram sobre o que disseram, manifesta um fascinio ao meu olhar. Nao deveria. Eu me contento em ler o comentario do comentario, a descricao de uma visao e, por sorte ou entrega, vou vivenciando nas palavras a degustacao de momentos cujo os quais eu nao estava presente. Mesmo assim fico a imaginar o gosto, chego a me alimentar, a salivar...


Ate ha' poucos minutos eu nao sabia quem era Gay Talese. Talvez o mais proximo que tivesse chegado dele tenha sido na leitura dos participantes da Flip. Agora tampouco sei quem e' Gay Talese. Entretanto sei sobre ele o suficiente para ter atingido alguns dos meus sentidos...


Acabo de me recordar que Talese e' o tal excentrico jornalista que exigiu a troca de pousada que ficaria em Paraty para uma outra que pudesse acomodar os 25 ternos que trouxe para a viagem. Quem liga para excentricidades de genios? Talvez so quem nao consiga admirar as nuances das pessoas. O mesmo Gay Talese que se preocupa tanto com a vestimenta e aparencia explica ter reconhecido nos proprios pais os valores paradoxais humanos. Durante a segunda guerra seus pais eram capazes de tocar os negocios de dia, apoiando os americanos e `a noite manifestarem simpatia pelo ditador fascista Mussolini.


"Aprendi naquela época que há algo de esquizofrênico no ser humano. Nas histórias que escrevi depois, sempre me lembrava que as pessoas têm pelo menos duas versões sobre as coisas"


Tambem sobre Talese podemos reconhecer uma outra versao: a do homem que quer saber muito mais do interlocutor do que falar de si mesmo (e tambem por isso o seu sucesso como jornalista e escritor). Inclusive este fato ficou muito evidente na entrevista - ou materia, ou reportagem - que tentaram fazer com ele para a revista Brasileiros. Taleuse sentou com o reporter em um restaurante e o instigou a contar os proprios segredos, ao inves de revelar os seus. Ouviu compenetradamente. A sua lendaria reportagem sobre Frank Sinatra, que o tornou famoso (aqui em ingles), lhe privara do contato direto com o cantor, havia sido feita por informacoes colhidas ao longe, de terceiros (alias assim como tambem eu estou fazendo agora ao escrever sobre Talese, so que talvez sem o mesmo talento).


Ainda ha uma outra versao do homem que tanto se preocupa com os ternos que ira vestir que me encantou. Ao comentar a materia feita sobre Frank Sinatra em que entrevistou apenas pessoas que vivam ao seu redor:

"Para você fazer isso, tem de colar nas pessoas, passar tempo com elas. E eu tenho muita facilidade em passar muito tempo na companhia de gente comum. Na verdade, acho que é porque eu também sou comum. A única coisa que tenho de diferente é uma curiosidade extraordinária.


De tudo que li sobre Gay Talese nesses minutos que antecederam a escrita deste texto o que de imediato me chamou a atencao foi este comentario:


"(...)as pessoas não dizem o que pensam. Não dizem porque não sabem".


Alias eu me incluo, nem sempre o que digo e escrevo e' o que eu penso. E' apenas um exercicio de aproximacao com meu sentimento, com meu pensamento. E' tambem bastante efemero... O que escrevo ou digo deve durar o instante da criacao e emissao da palavra, nada alem disso. Nao deve valer como promessa ou contrato. E' assim que escuto tambem, ou pelo menos tento. Entretanto o que Gay Talese disse esta' a um passo alem de profundidade do que estou dizendo. Nao so ha' muito de efemeridade no que e' dito como ha' pouco de verdade. E isso nao se evidencia porque as pessoas sao falsas ou mentirosas, mas porque nem elas mesmas sabem o que pensam. Entao dizem sem pensar, sentem sem saber... Tantos conflitos poderiam ser evitados se isto fosse levado em conta.


O ouvido que ouve interpreta sem pensar, o olho que le capta sem sentir. Novas impressoes, novos textos, novas criacoes, sao feitas das ideias irreais criadas a partir de fatos imaginados, que sabe se la' se chegaram a existir. Saber eu nao sei, mas escrevi sobre. Se voce chegou ate' aqui e quer se aproximar um pouco mais do que pode ter sido, quer conhecer a fonte que me fez "falar" esse texto, ainda que, de certa forma, talvez nao represente exatamente o que penso... Aqui esta:


Cafe Impresso (Uma deliciosa cronica escrita durante a leitura de uma cronica de Talese. Inclui a citacao do trecho em que Talese comenta sobre Vinicius e Tom Jobim e sobre o momento em que Frank Sinatra pediu para gravar "Garota de Ipanema", gravacao esta que eternizou a musica)


O livreiro (um relato bem escrito da Flip com belas citacoes de Taleuse)


Revista Brasileiros (tentativa de fazer uma entrevista com o mestre)


Foto de Andre Teixeira, do jornal O Globo.

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