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3 de mar de 2008

Filmes e palavras que me tocam

Adoro cinema!
Toda semana muitos filmes são lançados, sei que não conseguirei ver todos. Sei que muitos se tornarão parte de meu esquecimento e sempre penso que justo aquele que não assisti, nunca mais ouvi falar, poderia ser um filme significativo para mim. Fico com aquela sensação de saudade do que não vivi. Esse assunto daria um bonito texto: a saudade do desconhecido, do que não houve, do que nunca existiu. Escrevo qualquer dia. Aliás já escrevi. É um tema recorrente nas minhas palavras. Voltarei a ele. Agora estava falando sobre os filmes que passam sem deixar vestígio. Por exemplo, o ator Ethan Hawke escreveu um livro e sobre esta mesma história dirigiu um filme, estreou e saiu do cinema em pouco tempo. Acho que foi no final do ano. Lembro-me que quis assistir, não aconteceu, pode ser que nunca mais chegue a ver. Isso se sucedeu com inúmeros filmes, cujo os quais não me recordo nem do nome, nem do enredo. Pena! Poderiam ser uma grata surpresa como foi para mim "Jornada da Alma".
http://www.adorocinema.com.br/filmes/jornada-da-alma/jornada-da-alma.asp
Filme pouco conhecido (se comparado aos blockbusters). Talvez eu nunca viesse a saber quem foi Sabina Spielrein, a primeira paciente de Jung, que se tornou tão especial para mim.

Ontem também peguei o caderno de esportes e me deparei com uma entrevista incrível do piloto italiano Alessandro Zanardi, nunca tinha ouvido falar do atleta. Logo mais falarei sobre ele.

Assim aconteceu também quando peguei um pedaço do jornal que não leio com frequência, semana atrás. Publicado na Folha de São Paulo o título me chamou a atenção pelo autor: o brilhante maestro e ex-pianista João Carlos Martins. Eu o admiro pela história de vida e por todas as entrevistas que já o vi conceder para a TV. Neste texto intitulado "Guga e a superação", ele se superou. Fiquei emocionada em ler e compartilho com você aqui.

14 DE FEVEREIRO DE 2008 João Carlos Martins: Guga e a superação
Por João Carlos Martins, para o 'Tendências e Debates' da Folha de S.Paulo.

Após um concerto que regi com a minha Bachiana em nossa turnê nacional na cidade de Curitiba ao final, como sempre faço, executei ao piano uma peça de Bach, com os três dedos que posso utilizar.Neste momento procuro colocar o meu coração em cada nota e, inúmeras pessoas, muitas delas com algum problema físico, me procuram dizendo da importância que aquele momento teve em suas vidas.Uma dessas pessoas foi Alice, mãe de Gustavo Kuerten, que viajou de Florianópolis para assistir ao concerto. Disse-me ela que chorou bastante no instante da apresentação, mas que estava feliz de presenciar uma cena que servia de inspiração para o seu filho, o genial Guga.Na última terça, ao ver pela televisão a partida do nosso eterno campeão na Costa do Sauípe, devolvi as lágrimas da Alice e as do próprio Guga, certamente com juros e correção monetária, pelo que ele está significando para todo o Brasil, não como o vitorioso tenista das quadras, mas como exemplo de superação e dignidade.Superação e determinação sempre fizeram parte da sua vida, como pudemos observar nas quadras em momentos difíceis. Dignidade ele demonstrou no momento em que, após citar a mãe, emocionado, demonstrou o que o seu técnico Larri Passos significou para ele desde a sua infância.Quantas vezes no exterior, ao ligar uma televisão no quarto de um hotel, eu assistia às memoráveis conquistas do nosso Guga, e sobre elas não escreverei, pois já fazem parte da história do tênis e do esporte.Lembro de uma entrevista de Pete Sampras afirmando que era uma responsabilidade enorme jogar contra o brasileiro. Outros tenistas da época faziam declarações semelhantes.Sem dúvida alguma ele representou durante alguns anos a imagem do Brasil no esporte. Mas eis que, por razões alheias a sua vontade, pudemos observar o início de uma nova fase na sua vida. Foi então que a minha admiração real começou a crescer quando ele, após saber da triste realidade de um problema físico que afetou os seus movimentos e a sua resistência, jamais pensou em desistir. Tentou cirurgias, fisioterapias, adaptações musculares e técnicas. Nesse momento, o nosso campeão começou a colecionar as vitórias mais importantes da sua carreira, pois estas são as vitórias da vida, e não as das quadras.Eu posso imaginar tudo o que se passou na sua cabeça ao perceber que, aos poucos, Roland Garros e outros grandes torneios iam saindo de seus sonhos. Mesmo assim, apesar dos problemas físicos, algumas partidas memoráveis aconteceram com vitórias geniais sobre os "top ten" do mundo do tênis.Mas a realidade era cruel, e, aos poucos, o cidadão Gustavo Kuerten começava a crescer diante dos nossos olhos, participando humildemente de torneios sem muita expressão, saindo inclusive em primeiras rodadas.Imagino quantas e quantas noites nosso campeão se questionou: será que vale a pena tentar depois de tantas glórias alcançadas no passado?.Eu digo que valeu, pois ficou o exemplo de determinação e de superação. Escrevo este artigo, pois sei tudo o que se passou em minha cabeça ao saber que minhas mãos não reagiam mais nem a cirurgias ou fisioterapias.Por quantas madrugadas fiquei, anos a fio, sentado em frente ao piano tentando fórmulas mágicas para compensar o problema físico. No dia 1.º de abril estarei na Sala São Paulo, e no dia 23 de maio no Carnegie Hall, em Nova York, regendo a minha Bachiana na primeira parte e na segunda metade tocando no piano músicas lentas de Bach e Mozart.Graças ao instrumento e à música, tentarei conseguir a qualidade de som que sempre sonhei.Na mesma época o nosso campeão estará em Paris, no torneio de Roland Garros, colecionando mais uma vitória da vida. Neste momento, eu chego à conclusão que o destino coloca em nossa frente obstáculos quase impossíveis de serem ultrapassados. Com fé e determinação (em nosso caso), atleta e músico conseguem vencer essas barreiras. Por outro lado, o destino pode colocar em nossa frente obstáculos impossíveis de serem transpostos, por causa de problemas físicos. Com humildade temos que reconhecer a impossibilidade de ultrapassá-los. O importante é ter o bom senso para diferenciar um caso do outro.Segue a hora de contar o meu segredo para o Guga, Alice e Larri: cada bola que sair de sua raquete nos próximos jogos, ao pousar mais lentamente na quadra do adversário, aos meus ouvidos soará como uma nota musical, numa melodia cheia de expressão e amor, que nos dá orgulho de sermos brasileiros.Parabéns, Gustavo Kuerten, as nossas lágrimas são pela sua coragem.
João Carlos Martins, 67, é maestro titular da Orquestra Bachiana Filarmônica e diretor da faculdade de música da FMU.

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