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8 de mar de 2008

Consumismo Cego

Tem tanta coisa boa sendo escrita, pensada. Muitas não chegam. Fico feliz que esse texto tenha chegado a mim. Foi enviado por e-mail, por meu amigo Jone, e publicado ontem no jornal Folha de São Paulo.
É uma reflexão sobre até que ponto o consumismo invadiu nossa sociedade e nos consumiu em uma busca irracional de consumir a perfeição.
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Corpos de consumo

ROSE MARIE MURARO E MARIA TEREZA

DESDE QUE começamos a trabalhar com mulheres, a pergunta básica que nunca deixou de ser a mesma é sobre o tratamento da mídia a respeito do corpo feminino. Agora, contudo, devido ao avanço da tecnologia, a coisa está se tornando mais grave. O consumo não é mais sobre a forma física da mulher, que é sempre jovem, magra e bela, mas sobre seus laços mais profundos.
Sites americanos e brasileiros apresentam o "pacote de cirurgia pós-parto": lipoaspiração para retirada das gordurinhas extras, correção da vulva e dos seios, tudo para consertar o "estrago" que a gravidez faz no corpo da mulher. Médicos mais sensatos recomendam alguns meses de espera para que a própria fisiologia se encarregue de fazer boa parte do trabalho, mas outros vendem a idéia de "aproveitar a oportunidade do parto" e cuidar de recuperar rapidamente a auto-estima supostamente perdida com a "deformação" provocada pelo feto.

O vínculo amoroso imprescindível com o bebê, a intimidade da amamentação, a importância dos primeiros dias e semanas após o parto para incluir o bebê na família deixaram de ser a prioridade?
Sim. Para a sociedade de consumo, nem o corpo da mulher nem o da criança nem o do homem são prioridades. A prioridade única e exclusiva é o lucro. O lucro vale mais do que a vida humana.
No depoimento de algumas mulheres motivadas a comprar o "pacote", os argumentos giravam em torno de garantir a permanência do desejo do marido, preservar a boa imagem no ambiente de trabalho, destacar a importância do corpo perfeito. E agora perguntamos: vale a pena ficar com um companheiro que só nos quer se estivermos "com tudo em cima"? O consumo também engole os valores mais profundos do amor.
Em conversa com uma moça na faixa dos 20 anos, vimos a insegurança de ir para a cama com o namorado sem estar perfeitamente depilada. Este, por sua vez, também depila os pêlos do peito: não é à toa que cresce o nicho das clínicas de depilação. Será que o desejo ficou tão vulnerável à estética, tão volátil, que desaparece sem os devidos cremes, as horas nas academias e os tratamentos de beleza para corrigir as imperfeições? É isso que se faz com a juventude.

Ao invés de aumentar a auto-estima, o "modelo perfeito" de homens e mulheres só faz com que esta diminua e seja substituída por um mal-estar subjacente que, desde a adolescência, persegue homens e mulheres a respeito de sua imagem até o fim da vida. Porque é impossível para o ser humano médio competir com os padrões de beleza que vê nas revistas, nos filmes e nas novelas de televisão. O fato se agrava cada vez mais à medida que a mulher vai amadurecendo.
Na maioria dos países desenvolvidos, os anos de vida útil aumentam cada vez mais, e cada vez mais se faz uma publicidade para a beleza amadurecida. No Brasil, as companhias de cosméticos não conseguem furar a barreira do preconceito da eterna juventude, a fim de criar uma "juventude" interna que não se desgasta com o correr dos anos.
Em meio a intensas dores e desconforto de uma plástica de abdome para tirar a barriguinha que ficou mal na foto, uma mulher de meia-idade pensa na calça jeans e nos vestidos de malha que conseguirá usar depois de atravessar a via-crúcis do pós-cirúrgico e das várias limitações à sua mobilidade nas primeiras semanas. Qual o verdadeiro sentido desse sofrimento auto-imposto?

O amor, o desejo, a ternura e a cumplicidade podem existir entre pessoas com corpos imperfeitos. Ao contrário do que a mídia apregoa, quanto mais maduros homens e mulheres, mais profundas se tornam suas relações, mais independentes de estereótipos e mais prazerosas, de um prazer inabalável, se não fosse o bombardeio midiático de que a velhice é uma doença, e não uma plenitude. Para onde nos leva o capital/dinheiro? São inaceitáveis as marcas (e os marcos) do tempo no corpo? É imoral envelhecer?
O pior é que não é só o corpo que o capital/dinheiro destrói. Ele destrói também a capacidade de homens e mulheres de aprofundarem a sua relação com a realidade. Destruir o corpo real e substituí-lo por um corpo de consumo é também substituir a "realidade real" por uma "realidade de consumo", que tende a destruir a própria espécie humana (a partir do desequilíbrio climático pelo excesso de consumo).

ROSE MARIE MURARO, 75, escritora e editora, é patrona do feminismo brasileiro (Lei 11.261/2005).
MARIA TEREZA MALDONADO, 59, psicóloga, é integrante da American Family Therapy Academy, com mais de 20 livros publicados.

2 comentários:

D y a n e P r i s c i l a disse...

Corpos de consumo, sinceramente, é um texto muitíssimo interessante, homens e mulheres, prendem-se a esteriótipos, e estes, ilusórios, é que os movimentam. Se negam a sua própria natureza e se perdem, em uma busca constante por deleites juvenis. A eterna juventude, está no espírito, na alma, de cada pessoa, quando ela amadurece e aprende a simplesmente desfrutar das nuances da vida.
Vaidade é aceitável e saudável, porém, a linha entre vaidade e vaidade insana, é tênue. E as pessoas vêem na mídia, a venda perfeita para completar as suas necessidades, as pessoas fazem de si objetos e procuram o inalcansável, perdem-se no mundo que elas inventam e mentem para si todas as vezes que se olham no espelho, pois por mais que o corpo aparente 20, a alma com seus 50 calejada da vida, se engana fingindo-se de uma jovem menina, ou um garoto trakinas.

martha barbosa disse...

Que lindo teu blog, adorei, os textos são muito bons, os temas abordados também. Parabéns. meu blog é marthacorreaonline.blogspot.com

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