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14 de mar de 2008

Luz Maior

Para quem está chegando aqui pela primeira vez vou escrever uma crônica inspirada em fatos reais. Meu trabalho como educadora e minha função de diretora me permite presenciar cenas incríveis e mágicas...
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Ele tem cabelos e olhos claros, usa óculos e era a primeira vez que eu o via. Devia ter 9 anos de idade e segurava a mão do irmão mais novo, de 3 anos, mas só ele chorava. Um choro doído, como se tivessem arrancando algo de seu peito. Eu reconheci esse choro. Um choro que eu também já havia chorado, em uma idade parecida com a dele. Pedia para ir embora, queria que ligássemos para a mãe. Era a primeira semana de aula. Ligar para mãe de um aluno novo é dar um atestado de que somos incompetentes em continuar com ele. Se o deixou lá é porque nos escolheu.

É comum a insegurança das crianças, o medo que sentem de ficarem sozinhas, de serem deixadas pelos pais. Sei porque presencio isso e sobretudo porque vivenciei isso. Sofri esse temor por boa parte da minha infância. Não foi preciso nem olhar nos olhos dele para me identificar com a dor que sentia e que me remetia a minha própria dor, quase esquecida em um tempo remoto.

Estou acostumada a conversar com crianças que choram. Busco dentro de mim o meu sofrimento, para que possa compartilhar com transparência o sofrimento dela. Preocupo-me em me mostrar como elas, não acima delas. Preocupo-me em transmitir que não estão sozinhas no que sentem, possa faze-las companhia porque já senti o mesmo.

"O que foi meu querido?", falei para ele abaixada, para que pudesse estar na mesma altura de seus olhos, o respeitando o máximo que pude. Ele ainda chorava mas toda criança muda ao ser observada de perto e com consideração. Chamei-o para a minha sala para que tivéssemos um pouco de privacidade e concentração. Ele me contou que estava com medo de se separar do irmão mais novo assim que terminasse o intervalo - porque cada um iria para sua sala - queria ficar com o irmão. Pela dor de seu choro logo vi que o irmão era apenas uma referência e em pouco tempo de conversa, chorando o tempo todo, intensificou os pedidos de que chamássemos a mãe dele. Queria ir embora...

Tentei todas minhas estratégias psicológicas, falei que já senti o mesmo que ele (com toda a sinceridade e transparência do meu coração), que o compreendia e que era muito natural sentir-se assim, olhei no fundo de seus olhos e disse que tinha certeza que sua mãe viria buscá-lo porque ele era especial demais e eu viria, se fosse sua mãe. Nada funcionava e meus argumentos foram se dissipando...
Continuarei

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