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6 de ago de 2008

Manifesto de um Professor

Este é um outro texto que escrevi me colocando no corpo de um professor que deixa a sua escola de periferia. Não é exatamente uma despedida, mas um até logo, de quem pretende alçar vôos mais altos na profissão para seguir de uma outra forma e voltar, quem sabe, podendo ajudar ainda mais. O professor é humano, se redime, se liberta na esperança de ser salvo. E pretende, com a própria salvação de si mesmo, salvar outros em um futuro próximo.

Manifesto de um professor
Hoje, quando virar meu rosto, sei dos rostos que ficam me esperando voltar.
Hoje, quando virar a esquina sei que deixo para tras o menino e a menina me pedindo bola p'ra jogar.
Hoje, sei que não sou mais o moço de esperanças sobre o que a boa educação pode realizar.
Perdi parte de mim no caminho.
Penso se o capitalismo me venceu ou se me faltou vontade de lutar.
Lembro das promessas que carrego no peito.
De querer um mundo mais justo, mais direito.
Promessas sem resposta.
Pedidos sem presentes.
Súplicas no olhar...

É isso que guardo na memória,
Ao lado do meu sonho adormecido.
Não o abandono.
Não o deixo.
Mesmo em meu momento mais covarde.
Mesmo em minha tristeza mais profunda.
Há um sonho caminhando ao meu lado.
E ele dorme.
Como se ignorasse o que passo.
Como se não visse o esforço que faço.
Fica lá.
Às vezes acorda e me olha, pelo canto do olhar.
Se tivesse rosto seria um rosto de criança.
[A esperança que não morre].
Se tivesse vida teria a alma de um professor.
[A batalha que recomeça a cada aula]
Alguém que se despede resgatando a coragem e vontade de voltar.
O sonho não acabou.
A criança-sonho apenas dorme.
Está VIVA!
Ainda que os olhares que suplicam fiquem só,
Virão outros.

Minha batalha continua de uma outra forma.
Não se trata mais de emprego, ou trabalho,
Agora é um legado, uma missão.
Encontro-me com a minha vocação indelével.

Quem é professor uma única vez o será para sempre,
Enquanto houver vontade de ser aprendiz...
Por tudo que aprendi aqui, obrigado!

Obrigado, pelas lições que me marcaram,
Pelas vidas que ficaram,
Pelos tardes de sol na cabeça que me bronzeavam a pele,
Pela estrutura que faltava,
Pela vontade que sobrava,
Pela laço que nos unia,
Pelo pensamento que compartilhávamos,
Pelos eventos, pelas danças,
Pela música tocando na quadra,
Pela merenda dos alunos,
Pelo professor carente de abraço,
Pelo estudante que sorri um sorriso faltando dente,
Pela coreografia, pelos campeonatos,
Pelos muitos semblantes de quem não vê banho há muito tempo,
Pelo cheiro do suor porque desodorante é luxo,
Pela entrega,
Pelo sangue misturado ao recomeçar sempre,
Pela proteção do traficante que valoriza quem somos,
Pela bala perdida que não perfurou aqueles que vieram para aula,
Pelos que sobraram,
Pelos que restam,
Pelos que ficam,
Fico com eles,
Ainda que meu corpo se vá quando virar a esquina.
Fico com eles,
Ainda que meu rosto se vire,
Para esconder minhas lágrimas.

Aline Ahmad***


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